Conheça Júlio Valente: o homem da totalização no TSE e a sala de onde Flávio diz que tiraram os fiscais do PL
26/10/2026 · 23 min de leitura
Na noite do segundo turno, Flávio Bolsonaro disse que fiscais do PL foram retirados da sala-cofre do TSE. Quem comanda a STI e a totalização é Júlio Valente. Entenda como ele chegou até ali.

Na noite em que Flávio Bolsonaro recusou o resultado do segundo turno, ele denunciou que fiscais do PL foram retirados da sala-cofre do TSE. Quem comanda a STI e a totalização nessa Corte se chama Júlio Valente.
Fiscais fora, totalização por dentro
Na noite de 25 de outubro de 2026, depois da proclamação do segundo turno, Flávio Bolsonaro (PL) não reconheceu o resultado e disse que vai pedir a anulação do pleito. No mesmo pronunciamento, soltou o detalhe que poucos estavam falando em voz alta:
"Os nossos fiscais do PL foram retirados de dentro da sala-cofre a partir do momento que a decisão foi tomada. Então tem muita coisa para ser esclarecida antes de o Brasil simplesmente reconhecer essa sacanagem que ocorreu agora nessas eleições."
Fontes com o vídeo e a fala:
Vídeo do pronunciamento (trecho da sala-cofre): https://x.com/iane_menezes/status/2114561126675460587
Outro clip: https://x.com/zfabrogmailcom/status/2114542270363967777
O TSE respondeu com nota dizendo que a "sala-cofre" não é aberta à visitação e que fiscais do PL teriam acompanhado a totalização em outra área. Traduzindo: a própria Corte admite um espaço fechado no coração da apuração e disputa com o candidato derrotado sobre quem podia estar onde na hora da contagem.
Quem responde pela Secretaria de Tecnologia da Informação do TSE, pela totalização e pela divulgação dos resultados? Júlio Valente da Costa Junior. Desde maio de 2021 ele ocupa o cargo. Desde 2009 ele já era o chefe da Seção de Totalização (Setot). A sala que o Brasil chama de sala-cofre ou sala de totalização é o território operacional dele.
Júlio Valente da Costa Junior não é ministro. Não aparece em capa de revista. Não discursa no plenário. Ele opera a máquina.

Desde 11 de maio de 2021, é o secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Superior Eleitoral, o cargo que comanda a STI, a área que cuida dos sistemas de totalização e divulgação dos resultados das eleições. Antes disso, desde 2009, chefiava a Seção de Totalização e Divulgação de Resultados (Setot): o coração técnico que soma o que o Brasil vota.
A troca de guarda foi anunciada pelo próprio TSE. Valente substituiu Giuseppe Dutra Janino, o chamado "pai das urnas", após 15 anos no comando da STI. A troca, segundo a Corte, foi definida em conjunto pelo então presidente Luís Roberto Barroso e pelos ministros Edson Fachin e Alexandre de Moraes, os dois que, na sequência, assumiriam a presidência do TSE.
Fonte: TSE, nomeação de Júlio Valente: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2021/Maio/presidente-do-tse-nomeia-julio-valente-secretario-de-tecnologia-da-informacao
Esse organograma importa. Na prática, Valente responde pela infraestrutura digital do voto eletrônico no país mais populoso da América Latina. E, quando o PL tentou questionar o segundo turno de 2022, foi o parecer técnico assinado por esse mesmo secretário que Alexandre de Moraes usou para rebater o partido e para aplicar a multa de cerca de R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé.
Documentos oficiais, contratos publicados, depoimentos em CPI, notícia-crime protocolada, reportagens sobre invasão hacker e prints públicos do próprio Valente e do círculo em que ele circula. A confiança cega nele é um luxo que o Brasil não pode mais pagar.
O currículo que o TSE vende e o que ele não conta
O TSE apresenta Valente como servidor de carreira: mais de 25 anos na Justiça Eleitoral, 13 deles na STI. Desde 2009, Setot. Em 2021, o topo.
A narrativa oficial é de continuidade técnica. A troca de Janino por Valente veio no auge do debate sobre voto auditável. O Globo registrou, na época, que fontes do TSE negavam ligação da saída de Janino com a pressão pelo voto impresso e apontavam desgaste após problemas nas municipais de 2020.
Fato: quem assume a STI em 2021 já era, há mais de uma década, o homem da totalização. Fato: a transição contou com Janino ainda dentro da Corte, como assessor especial da Presidência, para "auxiliar" a troca. Fato: desde que Valente chegou ao cargo máximo de TI, a oposição ao sistema eletrônico e quem ousou questioná-lo com ação no TSE encontrou o secretário como peça técnica da resposta institucional.

O Facebook do secretário: Marx e Felipe Neto
Antes do cargo, já havia rastro público.
Em post no Facebook, Júlio Valente compartilha citações de Karl Marx, com o retrato clássico do filósofo, sobre capital, cobiça e a redução da vida humana a acumulação.
Em outro post, de 7 de setembro de 2019, Valente escreve: "Censura, nunca mais!!! Parabéns ao Felipe Neto e à Folha de S. Paulo." O print junta o post ao enquadramento de Felipe Neto com o ministro Luís Roberto Barroso em transmissão do JOTA.

São publicações do próprio servidor. O mesmo servidor que, anos depois, assina pareceres técnicos usados para esmagar ações da oposição sobre urnas. O mesmo servidor que, em agosto de 2022, recebe influenciadores na "sala de totalização" e explica ao país que "aqui não tem ninguém somando voto".
A pergunta é se o país aceita, sem escrutínio, que o operador-chefe da totalização seja, ao mesmo tempo, voz pública alinhada ao campo que combate a direita nas redes e peça técnica do ministro que multa quem questiona o sistema.
Testemunha do sistema: a multa de R$ 22,9 milhões
Em novembro de 2022, o PL pediu verificação extraordinária e invalidação de votos em centenas de milhares de urnas de modelos anteriores a 2020 no segundo turno. Alexandre de Moraes, então presidente do TSE, negou o pedido e aplicou multa de cerca de R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé à coligação.
A decisão não veio no vácuo. Moraes lastreou-se em parecer da STI. Reportagens da CNN e do Estadão registram: o relatório técnico assinado por Júlio Valente da Costa Júnior classificou argumentos do PL como "inequivocadamente" falsos e rebateu, ponto a ponto, as alegações sobre identificação de urnas, sigilo e discrepâncias entre modelos.

Fontes:
Valor: Moraes nega pedido do PL e multa ~R$ 22,9 mi: https://valor.globo.com/politica/noticia/2022/11/23/moraes-nega-pedido-do-pl-e-aplica-multa-de-r-22-milhoes-por-litigancia-de-ma-fe.ghtml
CNN: área técnica do TSE lista falhas na argumentação do PL: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/area-tecnica-do-tse-lista-falhas-na-argumentacao-do-pl-sobre-urnas/
TSE confirma a multa: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Dezembro/tse-confirma-multa-de-r-22-9-milhoes-ao-pl-por-litigancia-de-ma-fe
O ministro que concentra poderes excepcionais no contencioso eleitoral usa, como âncora técnica, o secretário que opera a totalização. Quem questiona o sistema enfrenta o juiz e o laudo do operador do sistema. A instituição investigada fornece a "verdade técnica" que condena quem a questiona.
E Valente não aparece só no papel. Print do STF mostra Julio Cesar Valente da Costa Junior listado entre testemunhas ouvidas no núcleo de ações sob relatoria de Moraes.

Janino: a sombra que treinou a transição
Valente herdou a máquina de Giuseppe Janino. Segundo o próprio TSE, Janino ficou para a transição.
Janino é o personagem recorrente de duas décadas de polêmica sobre a urna. Em 2015, na CPI dos Crimes Cibernéticos na Câmara, confrontou a advogada Maria Aparecida Cortiz sobre o "Inserator" e a segurança do sistema. O secretário minimizou riscos; a crítica apontou executáveis e falhas de auditoria.
Fonte: Agência Câmara, Janino e o Inserator: https://www.camara.leg.br/noticias/474559-secretario-do-tse-diz-que-inserator-nao-faz-parte-da-urna-eletronica
A notícia-crime: falso testemunho e Smartmatic "só de caixinha"
Em junho de 2018, a coalizão Convergências protocolou notitia criminis contra Giuseppe Dutra Janino, acusando-o de falso testemunho na CPI (art. 4º, II, Lei 1.579/52). O documento está disponível publicamente.
Fonte: NOTICIA-CRIME-FINALIZADO.pdf (Convergências): https://convergencias.org.br/wp-content/uploads/2018/06/NOTICIA-CRIME-FINALIZADO.pdf
Eixos da notícia-crime (resumo fiel ao documento):
Smartmatic não era "só traslado". Janino, na CPI, teria reduzido o papel da empresa a logística e deslocamento de caixa da urna. O contrato e auditorias apontam treinamento de técnicos, preparo, carga de software e acesso a momentos críticos. A notícia-crime anexa o contrato TSE/Smartmatic e cita relatório de auditoria (ITA/CMind/USP etc.) sobre vulnerabilidades e atores internos.
Inserator. Janino teria afirmado impossibilidade de uso comprometedor; a notícia-crime contrapõe trechos de auditoria e o depoimento de Cortiz sobre programa executável/compilável.
Módulo impressor / urnas aptas. Contradições entre falas de Janino no Senado (março/2018) sobre existência e custo de módulo impressor e demonstrações empresariais (Quattro) mais o histórico de aquisições de urnas aptas a impressão.
Pedido: instauração de inquérito por falso testemunho perante CPI.
O antecessor imediato de Valente foi formalmente acusado, com documentos anexos, de mentir ao Parlamento sobre o sistema que Valente agora comanda. A linha de defesa "Smartmatic só carrega caixa" é exatamente o que a notícia-crime chama de falso.
O hacker que entrou na rede do TSE
Em 2018, em plena eleição presidencial, um hacker entrou nos sistemas do TSE e disse ter ficado lá dentro de abril a setembro. O próprio tribunal chamou a Polícia Federal, e o caso virou o inquérito 1.361. O TecMundo recebeu e-mail do invasor alegando exploração remota, códigos-fonte, documentos e credenciais ligadas à alta cúpula de TI.
Fonte: Folha de S.Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/08/entenda-inquerito-do-ataque-hacker-ao-tse-utilizado-por-bolsonaro-para-questionar-urnas.shtml

A Gazeta do Povo detalhou o inquérito revelado por Bolsonaro em 2021: relatório interno da STI, acesso a Gedai-UE (sistema que prepara mídias das urnas), senhas fracas, máquinas de TREs comprometidas, IPs no exterior.
Fonte: Gazeta do Povo: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/o-que-diz-o-inquerito-da-pf-revelado-por-bolsonaro-sobre-a-invasao-hacker-ao-tse/
Quando a PF pediu os rastros, a resposta do TSE foi um e-mail de uma página, de 10 de junho de 2019. O servidor que compila o código-fonte da urna "não possuía qualquer tipo de log habilitado". Os registros do firewall se perderam porque a empresa contratada reinstalou o sistema "não tendo o devido cuidado de não prejudicar os logs armazenados". E o tribunal fechou assim: "o TSE não possui dados adicionais para repassar à Polícia Federal". Até hoje ninguém sabe por onde o invasor entrou, o que levou ou o que mexeu.
Fonte: Pleno.News: https://pleno.news/brasil/politica-nacional/registros-virtuais-de-invasao-ao-sistema-do-tse-foram-perdidos.html

Bolsonaro tornou o inquérito público e resumiu: "o TSE simplesmente apagou os logs". Comparou a um perito que apaga as digitais da cena do crime.
Fonte: UOL: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2021/08/05/bolsonaro-tse-entrevista.htm

Janino, então secretário, encaminhou material à PF e produziu informação técnica admitindo acesso indevido a código do Gedai-UE e credenciais. O TSE afirmou depois que a integridade das eleições de 2018 não foi comprometida. O especialista Diego Aranha, ouvido pela Gazeta, classificou a invasão como grave e criticou tanto a tese de adulteração consumada quanto a postura do TSE de minimizar o vazamento de código crítico.
A notícia-crime e as auditorias citadas por ela já falavam em risco catastrófico de agentes internos. O inquérito do hacker mostrou senha fraca, log apagado ou insuficiente, código sensível copiável na rede. Depois disso, o discurso oficial continua sendo o mesmo: "ataque nunca deu certo".
A propaganda oficial evita a pergunta que importa:
Se existe equipe só de cibersegurança "vigiando ataques", é porque há superfície de ataque. Urna e rede são sistemas. Sistemas têm borda. E a borda mais perigosa, em qualquer arquitetura séria, é a ameaça interna: quem já tem crachá, senha, acesso ao build, acesso à preparação das mídias, acesso à sala.
Ataque de fora é o argumento conveniente. A pergunta que importa: e se for de dentro?
A "sala preta", os influenciadores e as Redes Cordiais
Em 4 de agosto de 2022, o TSE recebeu cerca de 30 influenciadores digitais para conhecer a sala de totalização. A matéria oficial do TSE admite: a visita é parceria com o projeto Redes Cordiais, no âmbito do Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação. Valente aparece na matéria explicando que "aqui não tem ninguém somando voto" e que a sala "nunca foi secreta".
Fonte: TSE, influenciadores na sala de totalização: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Agosto/no-tse-influenciadores-digitais-conhecem-sala-de-totalizacao-onde-sao-somados-os-votos-dos-eleitores


Olhe a lista. A curadoria escolheu criadores alinhados ao discurso de "combate à desinformação", o mesmo guarda-chuva sob o qual a Corte expandiu poder sobre redes e narrativas.
Redes Cordiais tem entre seus nomes o jornalista Guilherme Amado, cofundador. A parceria TSE, Redes Cordiais funciona como aparelho de legitimação. Influenciador entra, filma a sala clara, volta para a rede dizendo que o boato da "sala escura" morreu. E o eleitor comum, no domingo da eleição, continua do lado de fora do "cérebro" da contagem.
Fonte: Guilherme Amado, Redes Cordiais: https://www.redescordiais.org.br/time/guilherme-amado
Reportagens recentes seguem o mesmo roteiro de humanização: sala com dezenas de funcionários, acesso restrito, monitoramento. Em 2014, o Jornal Nacional já registrava o caráter seleto da apuração: pouco mais de 20 pessoas "sabiam de tudo", funcionários incomunicáveis.

Fontes adicionais:
CNN Brasil, sala de apuração / 150 funcionários: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/sala-de-apuracao-do-tse-tem-150-funcionarios-para-monitorar-votos/
Folha, acesso restrito à sala (2026): https://www1.folha.uol.com.br/blogs/brasilia-hoje/2026/10/sala-de-apuracao-do-tse-tem-acesso-restrito-e-150-funcionarios-monitorando-cerebro-da-contagem-de-votos.shtml
David Ágape, em depoimentos e reportagens sobre Twitter Files Brasil e Vaza Toga, descreve a expansão do TSE como peça do complexo de combate à "desinformação", com poder crescente sobre plataformas e narrativa. A visita guiada de influenciadores cabe nesse quadro: não audita hash no domingo; treina porta-vozes.
Fontes:
Ágape, depoimento no Senado: https://www.ainvestigacao.com/p/depoimento-de-david-agape-no-senado
Ágape, Vaza Toga 2 / Câmara: https://www.ainvestigacao.com/p/vaza-toga-2-depoimento-de-david-agape
"Estamos preparando as urnas"
Em entrevistas e materiais oficiais, a STI fala em preparar urnas para áreas remotas, para o exterior, em carregar software, em lacração, em cerimônias de verificação.

Fonte: TSE, Preparação das urnas: https://www.tse.jus.br/eleicoes/historia/processo-eleitoral-brasileiro/logistica-e-preparacao/preparacao-das-urnas
A pergunta é sempre a mesma: quem audita, de fora, o que foi "preparado"? O eleitor vê o teatro da lacração. Não vê o build. Não vê a cadeia completa de mídias. Não tem cédula de papel para confrontar o bit.
O contrato Smartmatic de manutenção e preparo (ver seção seguinte) deixa explícito: inserção de dados, atualização de software, certificação digital, carga de software de eleição. "Preparar urna" inclui operar o software do pleito.
A narrativa oficial exige fé no procedimento interno. O jornalismo exige dúvida documentada. Sem auditoria independente de ponta a ponta e sem rastro físico do voto, "preparar" concentra poder.
Lula quer urna eletrônica para o mundo
No G7, áudio captado registra Lula defendendo que a ONU recomende sistema eletrônico de votação a outros países e citando a própria trajetória eleitoral "tudo pelo voto eletrônico".
Fontes:
Gazeta do Povo, Lula defende que ONU recomende urnas eletrônicas: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/lula-defende-que-onu-recomende-urnas-eletronicas-e-fala-em-possivel-4a-eleicao-pelo-sistema/
Enquanto democracias consolidadas preservam cédula auditável ou híbridos com papel, o presidente brasileiro exporta o modelo que o TSE chama de intocável. A urna sem papel é patrimônio do arranjo que o elegeu e o reelegeu no século XXI.
Smartmatic: o contrato na cara de quem diz "fake news"
Durante anos, repetiu-se que "falar de Smartmatic no Brasil é fake news". A notícia-crime contra Janino e as matérias de 2012 mostram outra coisa: a empresa entrou, sim, no ecossistema operacional das eleições brasileiras, no consórcio de manutenção e preparo (sem fabricar a urna "do zero").
Em julho de 2012, o Consórcio ESF (Engetec + Smartmatic Brasil + Smartmatic Internacional + Fixti) venceu pregão do TSE. Valor anunciado: cerca de R$ 129 milhões. Escopo: recrutar, contratar e treinar cerca de 14 mil profissionais; preparo e manutenção; carga de baterias; testes; inserção de dados; atualização de software e certificação digital; preparação, instalação e carga de software de eleição.

Fonte: TSE, notícia da licitação nº 42/2012: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2012/Julho/tse-conclui-licitacao-para-manutencao-de-urnas-eletronicas
Fontes:
ConJur, TSE conclui licitação: https://conjur.com.br/2012-jul-19/tse-conclui-licitacao-manutencao-urnas-eletronicas/
TSE, notícia da licitação: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2012/Julho/tse-conclui-licitacao-para-manutencao-de-urnas-eletronicas
A nota posterior do TSE (2017) insiste: Smartmatic não forneceu a urna brasileira nem programou o software "das eleições" no sentido de substituir a equipe da Corte; o contrato de 2014 teria sido de recrutamento, treinamento e suporte operacional. Mesmo essa nota admite milhares de profissionais no preparo e manutenção.
Fonte: TSE, nota Smartmatic: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2017/Agosto/nota-de-esclarecimento-empresa-smartmatic-e-urnas-eletronicas-brasileiras
A notícia-crime de 2018 afirma que reduzir isso a "carregar caixa" foi falso testemunho de Janino. Nós ficamos com o documento e o contrato: ninguém contrata empresa de tecnologia eleitoral venezuelana só para fazer mudança. Treinamento em massa e carga de software estão no anúncio da licitação.
Histórico internacional
Conforme dossiê compilado com fontes públicas (Wikipedia, DOJ, Miami Herald, NYT, AP):
Fundação em 2000 por engenheiros venezuelanos (Antonio Mugica, Roger Piñate, Alfredo Anzola); pivot para eleições após 2000.
Primeiro grande contrato: referendo de Chávez, 2004.
Controvérsias Venezuela (Bizta, denúncia da própria Smartmatic em 2017 sobre inflação de participação na Constituinte).
Aquisição e venda da Sequoia nos EUA sob pressão CFIUS.
Indiciamentos DOJ (2024, 2025) por esquema de suborno nas Filipinas envolvendo executivos e a holding SGO.
Atuação em dezenas de países; no Brasil, o TSE admite suporte operacional em ciclos eleitorais da década de 2010.
A ponte entre a Open Society e a Smartmatic tem nome e cargo. A Smartmatic é controlada pela holding SGO Corporation Limited, sediada em Londres. Em novembro de 2014, Antonio Mugica (CEO e cofundador da Smartmatic) e Mark Malloch-Brown anunciaram a SGO. Malloch-Brown, ex-subsecretário-geral da ONU e ex-ministro britânico, assumiu a presidência do conselho da SGO.
Ele ficou no comando do conselho da controladora da Smartmatic de 2014 até 4 de dezembro de 2020. Nesse dia a própria SGO informou que Malloch-Brown deixava o cargo porque a Open Society Foundations, a rede de fundações de George Soros, o nomeava presidente. Ele já era membro do conselho global da Open Society. Assumiu a presidência da fundação em janeiro de 2021 e saiu em junho de 2024.
George Soros não é acionista da Smartmatic. A AP News e a própria empresa desmentem essa versão. A ligação documentada é outra: o homem que presidiu o conselho da controladora da Smartmatic por seis anos é o mesmo que depois presidiu a Open Society de Soros. A SGO confirma a saída do conselho no comunicado da nomeação.
Fontes: comunicado da SGO sobre a saída de Malloch-Brown para a Open Society: https://sgo.com/media/article/sgo-statement-regarding-appointment-of-mark-malloch-brown-as-president-of-the-open-society-foundations/ | lançamento da SGO com Mugica e Malloch-Brown (2014): https://sgo.com/media/article/mark-malloch-brown-and-antonio-mugica-launch-sgo/ | Open Society anuncia Malloch-Brown como presidente: https://www.opensocietyfoundations.org/newsroom/patrick-gaspard-to-step-down-as-head-of-open-society-foundations | AP News, Soros não é dono da Smartmatic: https://apnews.com/article/2457814425
O dinheiro de Soros no ecossistema da "desinformação"
A ponte entre a Open Society e a Smartmatic, via Mark Malloch-Brown, é só a porta de entrada. No Brasil, a Open Society Foundations de George Soros despeja dinheiro em escala recorde. Só em 2023 foram pelo menos US$ 31,3 milhões, cerca de R$ 155,5 milhões, o maior volume já registrado pela fundação no país. Em 2024 foram mais US$ 28,4 milhões, cerca de R$ 153,2 milhões. Desde 2016, o levantamento do Instituto Monte Castelo soma cerca de R$ 781 milhões para 305 organizações.
Fonte: Gazeta do Povo, Soros repassa mais de R$ 150 milhões a ONGs brasileiras em 2023: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/dinheiro-george-soros-ongs-brasil-2023/
Fonte: Gazeta do Povo, Soros enviou R$ 153 milhões a ONGs no Brasil em 2024: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/exclusivo-george-soros-enviou-r-153-milhoes-a-ongs-no-brasil-em-um-ano-open-society-lista/
Fonte: Instituto Monte Castelo, a folha de pagamento de Soros no Brasil: https://montecastelo.org/georgesoros/
O caso mais escancarado é o de Felipe Neto, celebrado por Júlio Valente. O Instituto Vero, ONG do youtuber, recebeu US$ 250 mil da Open Society em 2021 para "combater a desinformação", às vésperas da eleição de 2022. O registro está no banco de doações da própria fundação. O próprio Felipe Neto confirmou nas redes: "Várias outras entidades contribuíram, incluindo a Open Society, do George Soros."

Fonte: Open Society, registro da doação ao Instituto Vero: https://www.opensocietyfoundations.org/grants/past?filter_keyword=Instituto+Vero
Fonte: Gazeta do Povo, STF contratou ex-coordenador de ONG de Felipe Neto: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/stf-contratou-ex-coordenador-de-ong-de-felipe-neto-para-setor-de-combate-a-desinformacao/
A ONG financiada por Soros entrou na estrutura da Justiça Eleitoral. O STF e o TSE promoveram, em parceria com o Instituto Vero, um seminário sobre desinformação com treinamento para servidores do TSE, dos TREs e do Ministério Público Eleitoral. Depois, o STF contratou Victor Durigan, ex-coordenador do Vero, para a área de combate à desinformação da Corte.
Fonte: STF, em parceria com STF e TSE, Instituto Vero traz palestras: https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/em-parceria-com-stf-e-tse-instituto-vero-traz-palestras-de-professor-de-oxford-e-de-ex-consultor-digital-de-obama/
O Sleeping Giants Brasil, grupo que pressiona anunciantes para asfixiar veículos de direita, recebeu da Open Society US$ 400 mil em 2022, US$ 700 mil em 2023 para "aumentar a responsabilização das plataformas online no Brasil", mais US$ 22 mil em 2023 e US$ 500 mil em 2024. Junto com o Instituto Vero, o Sleeping Giants integra a rede de combate à desinformação com a qual o STF firmou parceria.
Fonte: Open Society, doações ao Sleeping Giants Brasil: https://www.opensocietyfoundations.org/grants/past?filter_keyword=Sleeping+Giants+Brasil
Fonte: Gazeta do Povo, programa do STF contra a desinformação tem parceria com grupos de esquerda: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/programa-do-stf-contra-a-desinformacao-tem-parceria-com-grupos-de-esquerda/
O dinheiro também chegou a quem estuda eleição e redes. O InternetLab recebeu US$ 220 mil em 2018 com a descrição "Core Support/Elections Project Support/2018-2021" e, entre 2016 e 2021, recebeu mais US$ 620 mil. O Nossas, que faz mobilização política, levou US$ 4,1 milhões só em 2024. Na origem da indústria global da checagem, a First Draft, rede que treinava checadores e jornalistas, nasceu com recursos da Ford Foundation e da Open Society.
Fonte: Open Society, doações ao InternetLab: https://www.opensocietyfoundations.org/grants/past?filter_keyword=InternetLab
Fonte: Open Society, doações ao Nossas: https://www.opensocietyfoundations.org/grants/past?filter_keyword=Nossas
Fonte: Gazeta do Povo, Sleeping Giants e instituto de Felipe Neto: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/sleeping-giants-e-instituto-de-felipe-neto-sao-beneficiados-por-dinheiro-do-governo-americano/
O homem que presidiu o conselho da controladora da Smartmatic foi presidir a Open Society. A Open Society banca a ONG de Felipe Neto, celebrado por Júlio Valente, que treinou servidores da Justiça Eleitoral. Quem financia o "combate à desinformação" acaba ajudando a definir o que o eleitor pode questionar sobre a urna.
O que Valente representa
As peças:
Homem da totalização desde 2009; secretário de TI desde 2021, escolhido no arranjo Barroso, Fachin, Moraes.
Publicações próprias com Marx e com celebração a Felipe Neto / "censura nunca mais".
Publicações e ambiente público alinhados ao campo que combate a direita nas redes.
Parecer técnico usado por Moraes para multar em ~R$ 22,9 mi quem questionou urnas em 2022; presença como testemunha no ecossistema Moraes.
Herdeiro da STI de Janino, alvo de notícia-crime por falso testemunho na CPI, inclusive sobre Smartmatic.
Sistema que sofreu invasão com acesso a código crítico e falhas graves de log e senha, e segue vendido como hermético.
Operação de legitimação com Redes Cordiais e influenciadores na "sala que nunca foi secreta", enquanto o eleitor comum nunca entra na hora da contagem.
Smartmatic no contrato de preparo e software operacional, apesar do mantra de "fake news".
O Brasil foi treinado a tratar dúvida sobre urna como crime de pensamento. Enquanto isso, o secretário de TI dá entrevista, recebe influencer, assina parecer, depõe no arranjo Moraes. E o código, a preparação e a totalização continuam do lado de cá do vidro.
Nós não esquecemos quem opera a máquina.
O que a notícia-crime exige que se leia em voz alta
A peça da Convergências é notitia criminis com anexos: notas taquigráficas da CPI (03/11/2015), audiência no Senado (13/03/2018), auditoria especial do sistema de 2014 (ITA, CMind, USP, IBP e independentes), ofício da Quattro Eletrônica e o contrato TSE/Smartmatic nº 48/2014.
Fonte: NOTICIA-CRIME-FINALIZADO.pdf (Convergências): https://convergencias.org.br/wp-content/uploads/2018/06/NOTICIA-CRIME-FINALIZADO.pdf
No PDF, saltam trechos que o Brasil precisava ter lido em voz alta:
A cláusula do contrato que prevê treinamento de técnicos do contratante e o trecho da auditoria segundo o qual funcionários da Smartmatic teriam acesso a momentos críticos de carga de software e lacres.
A fala atribuída a Cortiz na CPI: Smartmatic carregando urna em São Paulo, enquanto Janino falava em "carregar caixa".
O relatório de auditoria sobre falta de desenho para auditoria externa independente; ausência de certificação do software nos padrões internacionais citados; risco de atacantes internos via compiladores, certificados, BIOS, processo de compilação.
A frase da auditoria sobre riscos "catastróficos/gravíssimos" que poderiam mudar resultados "sem deixar rastros".
O diálogo Lasier Martins × Janino sobre módulo impressor "que não existe no mercado" versus a demonstração empresarial e o histórico de urnas adquiridas para acoplagem.
O sistema que Valente herdou foi defendido no Parlamento com falas que a própria sociedade civil, em documento formal, chamou de mentira.
Barroso, Fachin, Moraes: a escolha política do técnico
A nota oficial do TSE não esconde: a troca Janino por Valente foi "definida conjuntamente" por Barroso, Fachin e Moraes. Três nomes do Supremo. Três nomes do eixo que conduziu o contencioso eleitoral e o "combate à desinformação" de 2021/2022.

Fonte: TSE, Presidente do TSE nomeia Júlio Valente secretário de Tecnologia da Informação: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2021/Maio/presidente-do-tse-nomeia-julio-valente-secretario-de-tecnologia-da-informacao
Há escolha política nessa nomeação, feita por tríade de ministros no auge da guerra do voto impresso. Valente era o homem da Setot (totalização) e passou a ser o homem da STI inteira. A continuidade com Janino na transição garante que o método da casa não se perdeu: mudou só a placa na porta.
Quando Moraes, meses depois, usa o parecer de Valente para multar o PL, o círculo se fecha. Quem escolhe o secretário também julga quem ousa duvidar do secretário.
O teatro da verificação
O TSE promove "eventos verificadores" do sistema de totalização. Valente aparece em matérias oficiais afirmando integridade, autenticidade, ausência de votos pré-carregados, dezenas de oportunidades de inspeção para entidades fiscalizadoras.
Fonte: TSE, evento verificador da totalização 2022: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Outubro/tse-realiza-evento-verificador-do-sistema-de-totalizacao-das-eleicoes-2022
Nós não engolimos o verbo "verificador" como sinônimo de auditoria popular. Entidade fiscalizadora fica longe do eleitor comum. Cerimônia de verificação não substitui cédula. Hash em evento controlado não entrega reconstrução independente do pleito com papel.
Na mesma lógica do teatro, o TSE promoveu a abertura física da urna eletrônica em vídeos para rede social. Em junho de 2022, no Kwai, o coordenador de Tecnologia Eleitoral Rafael Azevedo abriu a máquina, mostrou peças e funções, numa campanha oficial a cem dias das eleições. A Corte vendeu o espetáculo como transparência e combate à desinformação.
Abrir a carcaça e filmar os componentes para "provar" que não há fraude é o mesmo que abrir um cérebro fisicamente para afirmar que ele não tem pensamentos ruins. Hardware à mostra não revela o software que roda no dia do voto, nem a cadeia de preparação das mídias, nem a totalização. O eleitor vê plástico e placa. Continua do lado de fora do que importa.

Fonte: TSE, "Pela primeira vez, urna eletrônica será aberta em uma rede social": https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Junho/pela-primeira-vez-urna-eletronica-sera-aberta-em-uma-rede-social
Enquanto o discurso for "já verificamos 39 vezes", a pergunta permanece: verificaram o quê, sob quais restrições, e o cidadão pode repetir o teste sozinho?
A pergunta que o Brasil precisa fazer
Mais de 215 milhões de brasileiros são obrigados a confiar numa única cadeia de comando: a totalização dos votos numa sala controlada pelo TSE, sob a STI de Júlio Valente. Na madrugada que Flávio Bolsonaro denunciou, fiscais do PL teriam sido retirados da sala-cofre. O país inteiro assistiu ao que se falou como "paradinha" na contabilização. Desta vez o silêncio e o atraso vieram cedo, com a máquina já de posse da maior parte do fluxo de votos.
Por que o Brasil precisa fechar os olhos e engolir, como dogma, o profissionalismo e a imparcialidade de um secretário que já mostrou, em posts públicos e no meio social em que circula, aversão aberta a Bolsonaro e à direita? Por que a contagem do pleito fica inteira na mão desse homem e da equipe que ele escolhe? Por que a dobradinha técnica com o eixo Moraes, Fachin e Barroso, o mesmo eixo que o nomeou e que depois usou parecer da STI para multar quem ousou questionar urnas, deve ser tratada como neutralidade sagrada?
Enquanto a totalização for caixa-preta de um time ideologicamente marcado, com fiscal da oposição fora da sala e com pausa na contagem sob olhar de todo o país, a pergunta não é de etiqueta. É de soberania do voto: quem segura o botão da totalização, a serviço de quem, e por que o cidadão não pode auditar sozinho o resultado com cédula na mão?
E se a fraude vier de dentro? Em 2018, quando um invasor de fora entrou, os rastros sumiram: servidor de código-fonte sem log, registros perdidos na manutenção, PF sem dados adicionais. O TSE chamou isso de acidente. Bolsonaro chamou de apagamento. Em qualquer das duas leituras, a investigação ficou às cegas. Se alguém de dentro colocar um software diferente e apagar o rastro "sem querer", como saber?
Não podemos esquecer tudo que já vivemos. Lembrar do passado é essencial para preparar um futuro melhor.
